Esta semana aqui em Coimbra são as férias de Páscoa. Isso mesmo, por mais bizarro e folgado que possa parecer, na semana santa não têm aulas desde segunda feira. Ou seja, a cidade vai esvaziando. Desde sexta feira passada os estudantes vão indo pra suas casas, ou fazendo viagens mais longas, pois são uns 10 dias de folga.
Uma parte das poucas pessoas que conheço foi para o Marrocos. Outra parte, para a Espanha, e outra, ainda, voltou pra casa. No final ficamos apenas Maíra e eu aqui em Coimbra.
Porém, aquilo que prometia ser uma semana tediosa e deprimente, se tornou em algo inesquecível.
Depois de muito procurar o que fazer, resolvemos que iríamos passar um dia na Serra da Estrela, que é o lugar mais alto de Portugal. Todo o dia sai um ônibus aqui de Coimbra para uma cidadezinha chamada Seia. Assim, combinamos com uma conhecida nossa da Uerj.
A Serra da Estrela não é só o ponto mais alto de Portugal, é também o único lugar onde neva no inverno. São 1900 m de altitude. Porém, segundo sabíamos, a neve já não caía há um tempo, e o pouco que tinha já devia estar derretendo. Junte às boas expectativas para o nosso passeio uma segunda-feira com chuva no país inteiro.
Mesmo assim, resolvemos arriscar. Afinal, quem não arrisca não petisca. E não queríamos passar a semana inteira aqui sem quase nada para fazer. Logo, na terça pela manhã acordei bem cedo, tomei banho e café da manhã, e me dirigi à “super” rodoviária local, a fim de entrar no ônibus para Seia às 09h30min. (Detalhes interessantes: a rodoviária de Coimbra tem dois guichês de venda de passagens e seus 8 ‘portões’ de embarque, unidos dão menos que 100 metros de comprimento)
A viagem até Seia foi de menos de duas horas, os vilarejos que vi no caminho eram muito fofinhos. Tive pena da Maíra, que enjoou um bocado do meu lado. E também tive medo que ela vomitasse em cima de mim. Lá chegando, o Sol estava bem forte, mas fazia um frio danado. Na Serra faz 8 graus a menos do que aqui embaixo.
Depois de ir às informações turísticas, pegamos um taxi a fim de subir a Serra e ver se a neve estaria por lá. E não é que ela estava? Eu já tinha orado o dia anterior inteirinho pra que nevasse; e tinha ido orando a viagem toda pra ver nem que fosse um pouquinho. Conforme o carro subia, os topos das montanhas iam aparecendo com manchas brancas. Então, de repente, pela beira da estrada, era ela. A neve. O pobre do taxista, que, aliás, era um homem muito gentil e simpático, teve que parar no acostamento para que as três brasileiras malucas pudessem sair correndo pela neve jogando-a pra alto, umas nas outras e fizessem outras esquisitices que só fazem aqueles que nunca a viram antes.
Após uns 20 minutos de frenesi na beira da estrada, seguimos até a Estância de Esqui Vodafone, na Torre, onde havia muitas outras pessoas - entre adultos, jovens e crianças – a se divertirem muito, muito mesmo, com a neve. Gente descendo de trenó, gente correndo, gente andando de teleférico. Nós nos decidimos pelo teleférico. E lá fui eu para minha primeira aventura branca e congelante.
Nesse ponto, já tinha começado a nevar um pouquinho. Pequenos flocos brancos iam se deitando em meu chapéu preto. E em meu casaco. Coisa mais linda. Deus, além de fazer nevar durante a noite, ainda me permitia ter a experiência de ter a neve caindo em mim. Fofo! Foi como se Ele estivesse me dizendo: “Vê filha, não só eu te trouxe até o outro lado do Atlântico, como também realizo até o desejo que parece tolo aos seus olhos”. Porque, a verdade é que, depois de estar aqui na Europa por seis meses, tudo o que me vier é lucro. Nesta hora eu chorei. De agradecimento. Pela minha vida, pela minha família que me proporcionou estar aqui, e por tudo que Deus é e muitas vezes eu nem percebo.
No fim, a grande aventura nem foi o teleférico. Ô troço devagar! Leva meia hora de viagem numa velocidade de formiguinha. RS. Mas foi todo o frio que passamos lá em cima. O tempo todo mexendo os dedos para que não congelassem. E quando já íamos voltando, a neve foi caindo cada vez mais forte, enchendo nossas roupas e cabelos, e impedindo a visão. Era tudo branco. Depois disso, entramos no taxi de volta a Seia. Mais aventura aí, pois a estrada já estava bem escorregadia. Enfim, chegamos sãs e salvas na cidade.
À noite, conversando com minha irmã sobre isso, ela disse: ‘Será que ver a neve é como ver o mar?’ E isso me ficou martelando muito tempo, até acordei pensando sobre o assunto. E acredito que é sim. Eu nunca vi o mar pela primeira vez. Sempre o conheci. Como boa carioca, o Mar faz parte da minha vida desde sempre. Ele é meu grande amigo e companheiro de férias. Em suas águas me refresco no verão, e sua visão traz sonhos ao coração. Um destes sonhos, o de atravessá-lo, vivo neste momento. Porém, uma outra força da natureza que eu não conhecia me encheu de emoção. É como um mar branquinho, branquinho. É um lindo branco de se ver que não acaba mais. E também tem uma força tremenda. É mais um dos feitos magníficos de Deus. Não podemos controlar o Mar. E não podemos controlar a neve. Podemos brincar com eles, admirá-los, e chorar ao perceber o quão grandioso é um Deus que cria com suas palavras algo tão impressionante. E como pode este Deus, em toda sua magnitude, amar alguém como eu – tão pequena e impotente perto de sua criação.
Agora eu entendo o que sentem os mineiros que chegam ao Rio de Janeiro, em frente ao Mar e dizem: “Nó, mas é bonito demais, sô!”
Abraços!