O Céu de Coimbra

Entradas do Março 2008

Foi assim, como ver o mar…

Março 20, 2008 · 8 Comentários

Esta semana aqui em Coimbra são as férias de Páscoa. Isso mesmo, por mais bizarro e folgado que possa parecer, na semana santa não têm aulas desde segunda feira. Ou seja, a cidade vai esvaziando. Desde sexta feira passada os estudantes vão indo pra suas casas, ou fazendo viagens mais longas, pois são uns 10 dias de folga.

Uma parte das poucas pessoas que conheço foi para o Marrocos. Outra parte, para a Espanha, e outra, ainda, voltou pra casa. No final ficamos apenas Maíra e eu aqui em Coimbra.

Porém, aquilo que prometia ser uma semana tediosa e deprimente, se tornou em algo inesquecível.  

Depois de muito procurar o que fazer, resolvemos que iríamos passar um dia na Serra da Estrela, que é o lugar mais alto de Portugal. Todo o dia sai um ônibus aqui de Coimbra para uma cidadezinha chamada Seia. Assim, combinamos com uma conhecida nossa da Uerj.

A Serra da Estrela não é só o ponto mais alto de Portugal, é também o único lugar onde neva no inverno. São 1900 m de altitude. Porém, segundo sabíamos, a neve já não caía há um tempo, e o pouco que tinha já devia estar derretendo. Junte às boas expectativas para o nosso passeio uma segunda-feira com chuva no país inteiro.

Mesmo assim, resolvemos arriscar. Afinal, quem não arrisca não petisca. E não queríamos passar a semana inteira aqui sem quase nada para fazer. Logo, na terça pela manhã acordei bem cedo, tomei banho e café da manhã, e me dirigi à “super” rodoviária local, a fim de entrar no ônibus para Seia às 09h30min. (Detalhes interessantes: a rodoviária de Coimbra tem dois guichês de venda de passagens e  seus 8 ‘portões’ de embarque, unidos dão menos que 100 metros de comprimento)

A viagem até Seia foi de menos de duas horas, os vilarejos que vi no caminho eram muito fofinhos. Tive pena da Maíra, que enjoou um bocado do meu lado. E também tive medo que ela vomitasse em cima de mim. Lá chegando, o Sol estava bem forte, mas fazia um frio danado. Na Serra faz 8 graus a menos do que aqui embaixo.

Depois de ir às informações turísticas, pegamos um taxi a fim de subir a Serra e ver se a neve estaria por lá. E não é que ela estava? Eu já tinha orado o dia anterior inteirinho pra que nevasse; e tinha ido orando a viagem toda pra ver nem que fosse um pouquinho. Conforme o carro subia, os topos das montanhas iam aparecendo com manchas brancas. Então, de repente, pela beira da estrada, era ela. A neve. O pobre do taxista, que, aliás, era um homem muito gentil e simpático, teve que parar no acostamento para que as três brasileiras malucas pudessem sair correndo pela neve jogando-a pra alto, umas nas outras e fizessem outras esquisitices que só fazem aqueles que nunca a viram antes.

Após uns 20 minutos de frenesi na beira da estrada, seguimos até a Estância de Esqui Vodafone, na Torre, onde havia muitas outras pessoas - entre adultos, jovens e crianças – a se divertirem muito, muito mesmo, com a neve. Gente descendo de trenó, gente correndo, gente andando de teleférico. Nós nos decidimos pelo teleférico. E lá fui eu para minha primeira aventura branca e congelante.  

Nesse ponto, já tinha começado a nevar um pouquinho. Pequenos flocos brancos iam se deitando em meu chapéu preto. E em meu casaco. Coisa mais linda. Deus, além de fazer nevar durante a noite, ainda me permitia ter a experiência de ter a neve caindo em mim. Fofo! Foi como se Ele estivesse me dizendo: “Vê filha, não só eu te trouxe até o outro lado do Atlântico, como também realizo até o desejo que parece tolo aos seus olhos”. Porque, a verdade é que, depois de estar aqui na Europa por seis meses, tudo o que me vier é lucro.  Nesta hora eu chorei. De agradecimento. Pela minha vida, pela minha família que me proporcionou estar aqui, e por tudo que Deus é e muitas vezes eu nem percebo.

No fim, a grande aventura nem foi o teleférico. Ô troço devagar! Leva meia hora de viagem numa velocidade de formiguinha. RS. Mas foi todo o frio que passamos lá em cima. O tempo todo mexendo os dedos para que não congelassem. E quando já íamos voltando, a neve foi caindo cada vez mais forte, enchendo nossas roupas e cabelos, e impedindo a visão. Era tudo branco. Depois disso, entramos no taxi de volta a Seia. Mais aventura aí, pois a estrada já estava bem escorregadia. Enfim, chegamos sãs e salvas na cidade.

À noite, conversando com minha irmã sobre isso, ela disse: ‘Será que ver a neve é como ver o mar?’ E isso me ficou martelando muito tempo, até acordei pensando sobre o assunto. E acredito que é sim.   Eu nunca vi o mar pela primeira vez. Sempre o conheci. Como boa carioca, o Mar faz parte da minha vida desde sempre. Ele é meu grande amigo e companheiro de férias. Em suas águas me refresco no verão, e sua visão traz sonhos ao coração. Um destes sonhos, o de atravessá-lo, vivo neste momento. Porém, uma outra força da natureza que eu não conhecia me encheu de emoção. É como um mar branquinho, branquinho. É um lindo branco de se ver que não acaba mais.  E também tem uma força tremenda. É mais um dos feitos magníficos de Deus. Não podemos controlar o Mar. E não podemos controlar a neve. Podemos brincar com eles, admirá-los, e chorar ao perceber o quão grandioso é um Deus que cria com suas palavras algo tão impressionante. E como pode este Deus, em toda sua magnitude, amar alguém como eu – tão pequena e impotente perto de sua criação.

Agora eu entendo o que sentem os mineiros que chegam ao Rio de Janeiro, em frente ao Mar e dizem: “Nó, mas é bonito demais, sô!”

Abraços!

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Alto Preço

Março 16, 2008 · 4 Comentários

Semana passada eu fui pela primeira vez ao culto aqui em Portugal. Perto de onde moro há uma Igreja Batista. Assim, no domingo pela manhã acordei relativamente cedo (o culto começa às 11:00 hr), me arrumei e fui meditando durante os 15 minutos de caminhada até lá. Perguntava-me como seria estar tão longe de casa, participando do culto numa Igreja em que não conhecia ninguém; num país onde, muitas vezes, apesar de ser falante de mesma língua, tenho uma enorme dificuldade de entender o sotaque.

Quando entrei no templo me dei conta de que não conseguiria passar despercebida desta vez. Diferente das muitas Igrejas que já visitei no Brasil, essa era bem pequena e o pastor fica sentado atrás, enquanto outro líder dirigia o serviço. Apenas levantando para pregar e fazer o encerramento.

O grupo de louvor foi chamado à frente e, dirigido por uma brasileira, colocou-se a cantar alguns hinos. Logo no primeiro momento, eu tive certeza de que não esqueceria nunca o que viveria naquela manhã. A semana não havia sido fácil, tive uns leves atritos com minha roommate (nada demais, apenas coisas que se dão quando convivemos 24 por 7 com alguém que não é sua irmã e por isso não te conhece tão bem); havia mudado pra um quarto, mas este ainda não estava do jeito que eu queria; as aulas tinham começado; e, somado a tudo isso, estava o fato de que não conhecia praticamente ninguém aqui, salvo uns jovens do GBU, mas com os quais eu não tinha tido tempo de conversar e me enturmar suficiente.

No primeiro hino percebi o que Deus estivera tentando me falar durante toda a semana em meus momentos de oração e meditação: que não importa onde eu estivesse Ele estaria cuidando de mim e a nossa amizade vai além de tudo o que eu posso imaginar. Que Ele é grande o suficiente pra me consolar, para me auxiliar a viver em comunhão com os queridos que ficaram no Brasil, mesmo eu estando do outro lado do Atlântico.

Foi então que a moça do louvor começou a cantar outro hino. Alto Preço. Agora eu já não mais agüentaria. As lágrimas que fiquei tentando disfarçar durante o momento anterior juntaram forças e me venceram.   Eu estava ali, a quilômetros de casa, dos meus amigos, da minha família, de tudo que sempre significou pra mim segurança. Estava longe do meu porto seguro, sozinha, num lugar onde as pessoas mal entendem o que eu falo, cantando uma música linda e familiar. Percebi que na verdade, eu não estava longe de tudo. Que o Reino de Deus é ali. É aqui no meu quarto. É onde eu estiver. Onde o seu povo estiver.

E então tive a certeza de que tudo vai dar certo. De que daqui a seis meses estarei de volta ao Brasil com uma bagagem interna ainda mais pesada do que a de 30 kg que trouxe comigo. Mas esta bagagem não vai me atrapalhar a subir e trocar de trens. Ao contrário, tive certeza de que Deus me trouxe aqui por que eu sou forte o suficiente para ter esta experiência. Porque Ele quer aperfeiçoar em mim alguma coisa que, talvez, onde eu estava não deixaria. Porque Ele me ama muito, e gosta de realizar os meus sonhos. E porque, neste ano de 2008, Ele resolveu que eu iria ter oportunidade de conhecer lugares que apenas via nos filmes; estudar em uma Universidade que é mais antiga do que o meu país; criar vínculos com alguém que eu já conheço há anos e ser sal e luz; conhecer pessoas novas e viver o amor Dele com cada um que cruzar o meu caminho. 

Deus é bom. E Ele sempre tem um cuidado amoroso com seus filhos. As coisas que eu tenho vivido por aqui e ainda vou viver gravam esta bondade e amor no meu coração. Que eu possa demonstram isso andando na Luz todos os dias da minha vida.

Abraços!

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Longe de casa… há mais de uma semana…

Março 9, 2008 · 7 Comentários

Finalmente acho que o primeiro post deste blog sai… A bem da verdade, eu escrevi um pequeno post em minha primeira noite em Coimbra, mas acabei  nunca publicando, e ele ficou desatualizado.

Hoje é sábado, e me encontro de pijama, debaixo do edredon escrevendo isso aqui. Não sei bem por onde começar, porque há tanta coisa que eu gostaria de contar, já vi tanta coisa nestes poucos dias em que estou cá (rs).

A boa notícia é que temos uma casa pra morar (após quase uma semana no Albergue da Juventude). Aparentemente chegamos tarde, e isso tornou a busca por um quarto bom e barato um tanto exaustiva e estressante. Agora estamos vivendo em um apê que fica na Rua do Brasil (grande ironia) e temos que andar 30 minutos ”pra cima” até chegarmos a Faculdade. Pelo preço que pagamos por ele e considerando tudo o que vimos por aí (entre quartos estranhos e preços exorbitantes), acho até que fizemos um bom negócio. A fase atual é aquele em que se gasta dinheiro com coisas de casa: precisamos de mais toalhas, e de toalhas de mesa, e de copos, e de talheres, e de um balde… Maíra está odiando a vida de dona de casa, mas pra mim tem sido indiferente.

As aulas começaram esta semana. Faremos quatro matérias. Pegamos matéria de cada ano do curso aqui, e penso que serão muito interessantes. Em geral, os professores foram bem atenciosos conosco, e conseguimos compreendê-los direitinho, apesar do sotaque. É engraçado, pois muitas vezes as pessoas aqui falam comigo e eu assinto, mas na verdade não entendi absolutamente nada.

A burocracia portuguesa continua… Depois de todo o transtorno que foi para tirar o visto no Brasil, aqui ainda há uma enorme papelada e coisas para resolver a fim de tirar a tal Permissão de Residência. Pelo menos até agora não tive que pagar por nada.

As pessoas com as quais tenho tido contato (professores, estranhos em lojas, o pessoal do albergue, e etc.) têm sido muito gentis. E penso que, em geral, os portugueses são assim. Eles gostam de descobrir que venho do Brasil. Porém, ainda não fizemos amizade por aqui. As pessoas parecem respeitar muito a privacidade de cada um, não invadem o meu espaço, por outro lado, parecem não se interessar muito por você. Junte isso à minha “adorável simpatia” e veja o resultado que dá.

A cidade de Coimbra é muito fofa. E cheira à História. Como o longe daqui são 30 minutos a pé, andei bastante, e vi muita coisa linda. É bom andar na ponte sobre o Mondego e ver uns patinhos de cabeça verde; vir pra casa pela Av. Emídio Navarro reparando no Parque e nas árvores que estão sem folha alguma – todas aguardando, como eu, o primeiro sopro de primavera. A Universidade de Coimbra, com seus 700 anos de vida é um mundo à parte, e merece um post só dela.

As liquidações que acontecem por aqui são enlouquecedoras. Eu preciso me controlar muito para não sair passando o cartão em todas as lojas cuja vitrine vejo. No entanto foi impossível resistir a: um casaquinho de moletom a € 2, 90;  uma luva a € 1, 95;  duas blusas fofas a € 0,95 e  um casaco (este eu precisava mesmo) a € 10,00.

Encerro por aqui, e espero conseguir escrever com mais freqüência contando sobre a vida que estou levando na Zooropa.

Beijos!

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