O Céu de Coimbra

Queima de Fitas

Maio 12, 2008 · 2 Comentários

Semana passada aconteceu aqui em Portugal a Queima de Fitas. E Coimbra, em se tratando do assunto, é a cidade mais tradicional, e talvez a mais importante.

Pra quem não sabe, Queima de Fitas é a principal festa anual dos estudantes por aqui. Ela marca o final do ano letivo (apesar de as aulas continuarem depois): os finalistas -formandos- queimam a fita com a cor do seu curso. Vem a família: o pai, a mãe, o irmãzinho, a vó, o papagaio, o periquito. Já os calouros, deixam de ser calouros, e passam a ter permissão para usar o traje.

Traje é uma roupa oficial que os estudantes usam em ocasiões especiais. Os homens usam terno preto; as mulheres, saia e blazer pretos; e todos usam uma capa preta por cima, no melhor estilo Harry Potter.

Tradicionalmente, as celebrações começavam na quinta feira com a serenata, mas este ano, o calendário foi modificado, e o início se deu na sexta feira, dia 02. Assim, nesta data, milhares de pessoas se dirigiram para a Sé Velha a fim de ouvir um fado.

Como eu sou “filhinha de Papai”, moro em frente à Sé Velha, e não precisei ficar em pé na multidão a fim de apreciar a cantoria. Vi tudo do terraço aqui de casa.

A loucura da Queima chega ao seu auge no domingo (antes era terça feira) com o chamado Cortejo. Isso é, uma parada de carros alegóricos que os estudantes passam meses confeccionando, cada um o do seu curso. São mais de 90 carros, todos de papel crepon. O mais impressionante desta festa é o fato de os carros passarem pela cidade distribuindo bebidas e comidas de graça. Sim, de graça! Mas para os inocentes devo esclarecer que a bebida mais presente é a cerveja, claro. São litros e litros de cerveja. Ah, e não há música. NÃO É tipo um carro trio elétrico que distribui álcool. São carros distribuindo MUITA bebida alcoólica, pessoas molhadas de cerveja e afins, muito bêbadas desde cedo até a noite, desfilando sem fundo musical. Um desastre completo.

E devo salientar que as famílias (incluindo seus pequenos) continuam presente o tempo todo. Assistindo aos jovens e muitas vezes os acompanhando na bebedeira. Quando vemos estas coisas nos filmes, não acreditamos que existe. Mas a verdade é que existe sim. E eu vi com os meus próprios olhos. É lamentável imaginar que esta é a grande despedida que se faz da faculdade por aqui, o grande momento de orgulho para os pais: verem suas meninas molhadas de cerveja, a desfilar pela cidade – que a esta altura fede a cerveja, xixi e outros fluidos corporais.

Depois do domingo, a semana acontece do outro lado do Mondego – porque Deus tem misericórdia de mim – com shows e tendas de música no parque. Então o povo fica por lá até as oito da manhã e dorme o dia seguinte inteirinho. Este ano com a presença do ilustríssimo Gabriel, o Pensador.

Tudo termina no sábado. O pessoal entra no comboio de manhã cedo, direto do parque, vai até Figueira da Foz, onde acontece o último evento oficial – a Garraiada. Que é tipo um rodeio, ou coisa que o valha, onde os estudantes têm que acertar o touro, laçar o touro, ou sei lá o quê. Em Figueira se dorme na praia, vestido em trajes – cuja capa não pode ser lavada de maneira nenhuma. Legal, né? Eu posso até me ver nesta situação…

A quem interessar possa: eu fui ao cortejo até o limite da minha paciência, e nos outros dias fiquei em casa. Porque este tipo de coisa não há cristão que agüente. Lamentei pelas meninas molhadas de cerveja; pelos rapazes caídos no chão; pelas avós que só tinham aquele momento de “orgulho” para posar pra foto; pela juventude vazio e acima de tudo, pela humanidade que em toda a sua arrogância e estupidez, cada vez se distancia mais de Deus. Aquele que, de maneira nenhuma gostou do outro domingo. Só que Ele tem mais paciência do que eu. Ele é a paciência.

Agora, fico satisfeita em dizer que a vida está a voltar ao normal por aqui: as aulas retornaram; a bagunça e o quebra-quebra de garrafas serão só as terças e quintas; e todos começam a buscar um lugar onde se possa estudar para os exames. Aleluia!

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